De líder do MTST ao ministério: polêmicas, confrontos e trajetória de Guilherme Boulos
Por redação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou nesta segunda-feira (20) o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) como novo ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. Aos 43 anos, Boulos substitui Márcio Macêdo (PT) e assume o desafio de reconstruir o diálogo do governo com os movimentos sociais, campo em que construiu toda sua trajetória política.
Considerado um possível sucessor de Lula dentro do espectro progressista, Boulos assume uma das pastas mais estratégicas do Planalto. Sua nomeação é vista como um gesto político para fortalecer a articulação com as bases populares e conter divergências internas na esquerda. Logo após o anúncio, ele afirmou que pretende “colocar o povo na rua” e viajar pelo país conversando com movimentos sociais e lideranças locais.
Da militância à ascensão política
Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), Boulos iniciou sua militância aos 15 anos, na União da Juventude Comunista. Aos 20, ingressou no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), tornando-se um dos principais porta-vozes da luta por moradia no país. Sua trajetória à frente do movimento foi marcada por confrontos com autoridades e polêmicas envolvendo ocupações de terrenos e imóveis ociosos em São Paulo e em outros estados.
Em 2017, foi detido por desacato durante uma reintegração de posse, episódio que ampliou sua projeção pública. O MTST, sob sua liderança, defendeu que as ocupações eram um instrumento legítimo de pressão social, enquanto adversários o acusavam de promover invasões e de agir fora da lei. Essas ações moldaram sua imagem como ativista combativo e polêmico.
Nos anos seguintes, Boulos se consolidou como liderança nacional da esquerda. Concorreu à Presidência da República em 2018, obtendo cerca de 600 mil votos. Em 2020 e 2024, tentou a Prefeitura de São Paulo, alcançando mais de 2 milhões de votos em cada pleito, mas foi derrotado por Bruno Covas e, posteriormente, por Ricardo Nunes.
Confrontos, polêmicas e embates públicos
Ao longo da carreira, Boulos acumulou uma série de polêmicas. Já respondeu a processos judiciais, enfrentou abordagens policiais e foi alvo de campanhas difamatórias. Em 2024, foi condenado a pagar multa de R$ 53 mil por divulgar uma pesquisa eleitoral considerada falsa. No mesmo ano, tornou-se alvo do influenciador Pablo Marçal, que espalhou uma acusação forjada de uso de drogas, desmentida por exame toxicológico.
Outro ponto controverso foi sua posição sobre o conflito entre Israel e Palestina. Adversários tentaram associá-lo ao Hamas, o que o levou a adotar um discurso mais moderado durante a campanha municipal. Apesar disso, ainda enfrenta alta rejeição em parte do eleitorado.
Na Câmara dos Deputados, Boulos tem como bandeiras o aumento da taxação sobre grandes fortunas e a ampliação de políticas de moradia popular. Também propôs a estatização da empresa Avibras Indústria Aeroespacial, maior fabricante de armamento pesado do Brasil, em um movimento que surpreendeu aliados e opositores.
Da oposição ao Planalto
Com mais de um milhão de votos, Boulos foi o deputado federal mais votado de São Paulo em 2022, ficando atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL-MG) no ranking nacional. O resultado o consolidou como um dos nomes mais influentes do PSOL e o aproximou do presidente Lula.
A nomeação para a Secretaria-Geral simboliza uma transição de militante de rua a figura institucional. O cargo, que já foi ocupado por líderes históricos da base governista, exige habilidade política e capacidade de mediação — características que Lula espera ver em Boulos.
Filho de professores universitários e formado também em Psicologia pela PUC-SP, Boulos lecionou em instituições como a Faculdade de Mauá e o Hospital das Clínicas da USP. É casado há 16 anos com Natalia Szermeta e tem duas filhas.
A entrada do novo ministro representa não apenas um movimento estratégico do governo, mas também um marco simbólico: a chegada ao centro do poder de um ativista que construiu sua carreira nas ruas e que, agora, assume o papel de articulador entre Estado e sociedade.
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